19 Oct
19Oct

Cluster de Conhecimento Científico e Técnico dos Participantes de Programas de Capacitação da JICA:

Transformando a cooperação internacional, o conhecimento científico e a experiência profissional em soluções práticas para um mundo mais seguro, inclusivo, sustentável e resiliente.

Por Osvaldo Natale Vieira (Ossie)

JICA Trainee – Gestão Integral de Riscos de Desastres (CDRM), 2012–2014

Emergency Planning and Business Continuity

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1. Introdução: O valor duradouro da cooperação internacional

A cooperação internacional vai muito além da transferência de conhecimentos entre países. Seu maior valor está na construção de relacionamentos duradouros, no desenvolvimento de competências profissionais e no compromisso compartilhado de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Ao longo de décadas, a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) tem contribuído significativamente para a formação de recursos humanos por meio da cooperação técnica, capacitação profissional, parcerias institucionais e intercâmbio internacional de conhecimentos.

Em diferentes partes do mundo, milhares de participantes dos programas de capacitação da JICA retornaram aos seus países levando conhecimentos científicos, competências técnicas, experiências práticas e uma compreensão aprofundada das abordagens japonesas relacionadas ao desenvolvimento sustentável, à redução de riscos de desastres, à inovação e à resiliência comunitária.

Esses profissionais representam um valioso patrimônio internacional de conhecimento e experiência.

Entretanto, surge uma importante oportunidade:

Como conectar, mobilizar e transformar os conhecimentos e as experiências adquiridos nos programas da JICA em ações coordenadas que contribuam efetivamente para o bem comum?

Uma possível resposta está na criação do JICA Trainee Scientific and Technical Knowledge Cluster, uma rede colaborativa que reúna ex-participantes dos programas de capacitação da JICA, pesquisadores, especialistas técnicos e profissionais experientes para apoiar o desenvolvimento sustentável, o fortalecimento institucional e a resiliência das comunidades.

2. A visão: Do conhecimento individual ao impacto coletivo

A proposta do Cluster fundamenta-se em um princípio essencial:

O conhecimento torna-se mais valioso quando é compartilhado e mais poderoso quando é aplicado para melhorar a vida das pessoas.

Os ex-participantes dos programas da JICA atuam em diversas áreas profissionais, incluindo engenharia, saúde pública, gestão ambiental, planejamento urbano, educação, gestão de riscos de desastres, agricultura, tecnologia, governança e desenvolvimento social.

Individualmente, esses profissionais contribuem para suas organizações e comunidades. Coletivamente, possuem potencial para formar uma rede multidisciplinar capaz de enfrentar desafios complexos e interligados do desenvolvimento.

O Cluster proposto poderá:

·        Conectar competências científicas, técnicas e profissionais entre diferentes áreas e países.

·        Promover o intercâmbio de pesquisas, experiências, inovações e boas práticas.

·        Apoiar instituições públicas, universidades, organizações da sociedade civil e comunidades locais.

·        Incentivar mentorias técnicas, desenvolvimento profissional e aprendizagem colaborativa.

·        Desenvolver iniciativas práticas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

·        Fortalecer a preparação para desastres, a adaptação às mudanças climáticas e a resiliência comunitária.

·        Estimular contribuições profissionais voluntárias em benefício do bem comum.

Em vez de estabelecer uma instituição paralela, o Cluster teria como finalidade complementar e fortalecer as Associações de Ex-Bolsistas da JICA e as redes profissionais existentes, respeitando suas estruturas de governança e os respectivos processos de aprovação institucional.

3. Construindo uma rede internacional de profissionais científicos e técnicos

O Cluster poderá funcionar como uma rede de comunidades de prática multidisciplinares, conectando profissionais conforme suas especialidades, interesses e regiões de atuação.

Propõem-se inicialmente oito áreas temáticas prioritárias.

1. Habitação e Desenvolvimento Social

Promoção de moradias seguras e adequadas, inclusão social, assentamentos sustentáveis e redução das vulnerabilidades de populações em situação de risco.

2. Planejamento Urbano e Territorial

Apoio ao planejamento territorial resiliente, ao uso sustentável do solo, ao desenvolvimento urbano orientado pela gestão de riscos e à integração entre áreas urbanas e rurais.

3. Infraestrutura e Serviços Essenciais

Compartilhamento de conhecimentos técnicos relacionados ao abastecimento de água, saneamento, drenagem, transporte, energia, gestão de resíduos e continuidade dos serviços essenciais.

4. Redução de Riscos de Desastres, Bousai e Resiliência Comunitária

Fortalecimento da prevenção, preparação, sistemas de alerta antecipado, planejamento de emergências, comunicação de riscos e iniciativas de resiliência lideradas pelas comunidades.

5. Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Sustentabilidade

Promoção da adaptação climática, proteção ambiental, soluções baseadas na natureza e gestão sustentável dos recursos naturais.

6. Governança, Políticas Públicas e Desenvolvimento Institucional

Apoio à tomada de decisões baseada em evidências, fortalecimento institucional, transparência, participação social e aperfeiçoamento das políticas públicas.

7. Cidades Inteligentes, Ciência, Tecnologia e Inovação

Aplicação de informações geoespaciais, tecnologias digitais, pesquisas científicas, análise de dados e soluções inovadoras para o desenvolvimento local.

8. Cooperação Internacional, Educação e Desenvolvimento de Capacidades

Fortalecimento do intercâmbio profissional, mentorias, educação técnica e cooperação entre o Japão, redes de ex-participantes da JICA, instituições acadêmicas e parceiros do desenvolvimento.

Esses grupos poderão estimular a colaboração entre diferentes disciplinas, reconhecendo que desafios como mudanças climáticas, vulnerabilidade urbana e riscos de desastres exigem respostas integradas e não podem ser enfrentados adequadamente por áreas profissionais isoladas.

4. Bousai: O conhecimento japonês a serviço das comunidades resilientes

Uma das contribuições mais relevantes da cooperação internacional japonesa está no conceito de Bousai (防災), associado à prevenção, preparação e redução de riscos de desastres.

A experiência japonesa demonstra a importância de integrar conhecimento científico, engenharia, coordenação institucional, educação pública e participação comunitária para reduzir os impactos dos desastres.

Por meio dos programas de capacitação da JICA, profissionais de diferentes países tiveram a oportunidade de conhecer abordagens japonesas de gestão de riscos e fortalecimento da resiliência.

O Cluster poderá contribuir para adaptar esses conhecimentos às realidades locais, apoiando iniciativas como:

·        Diagnósticos participativos de riscos e vulnerabilidades comunitárias.

·        Educação preventiva e conscientização pública.

·        Planos comunitários de emergência e exercícios de evacuação.

·        Comunicação de riscos e sistemas de alerta antecipado.

·        Proteção de populações vulneráveis.

·        Continuidade de negócios e resiliência dos serviços essenciais.

·        Adaptação climática e desenvolvimento urbano resiliente.

·        Planejamento da recuperação e aplicação do princípio de reconstruir melhor (Build Back Better).

Um princípio central da proposta é que:

A resiliência começa nas pessoas, fortalece-se nas instituições e torna-se sustentável por meio de comunidades conectadas.

Nesse contexto, o Cluster poderá promover uma abordagem integrada de proteção em três níveis.

Primeiro nível – Pessoas e famílias: Fortalecimento da percepção de riscos, preparação individual e familiar, segurança pessoal e proteção inclusiva.

Segundo nível – Instituições e serviços essenciais: Melhoria da preparação organizacional, planejamento de emergências, continuidade de negócios e capacidades profissionais.

Terceiro nível – Comunidades e territórios: Promoção da ação coletiva, parcerias locais, infraestrutura resiliente e desenvolvimento territorial sustentável.

Esses três níveis constituem uma base prática para a construção de sociedades mais seguras, preparadas e resilientes.

5. Contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

O Cluster de Conhecimento Científico e Técnico poderá contribuir para os princípios da Agenda 2030 das Nações Unidas, incentivando a aplicação prática de conhecimentos profissionais na solução de desafios locais e globais.

Entre os principais ODS relacionados à proposta, destacam-se:

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável    Contribuição potencial do Cluster

ODS 3 – Saúde e Bem-Estar              Preparação em saúde pública e proteção comunitária

ODS 4 – Educação de Qualidade     Capacitação técnica, mentorias e intercâmbio de conhecimentos

ODS 6 – Água Potável e Saneamento             Gestão sustentável da água e infraestrutura essencial

ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura Infraestrutura resiliente e inovação tecnológica

ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis         Planejamento urbano orientado por riscos e resiliência comunitária

ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima    Adaptação climática, preparação e redução de riscos de desastres

ODS 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes               Fortalecimento institucional, governança e prestação de contas

ODS 17 – Parcerias e Meios de Implementação          Cooperação técnica internacional e parcerias multidisciplinares

O Cluster poderá contribuir para transformar compromissos internacionais de desenvolvimento em ações locais, mensuráveis e centradas nas necessidades das comunidades.

6. O bem comum: O conhecimento profissional como responsabilidade compartilhada

O conhecimento científico e a experiência técnica representam responsabilidades que ultrapassam as conquistas profissionais individuais.

Engenheiros, cientistas, especialistas em saúde pública, educadores, planejadores urbanos, gestores de emergências e pesquisadores possuem competências capazes de ajudar comunidades a compreender riscos, superar vulnerabilidades e construir futuros mais sustentáveis.

O Cluster pretende incentivar uma cultura de contribuição profissional voluntária, fundamentada na ética, no respeito mútuo, nas evidências científicas e no benefício público.

Essa abordagem não busca substituir as responsabilidades dos governos, serviços de emergência ou instituições oficialmente constituídas.

Ao contrário, pretende oferecer conhecimentos complementares, colaboração profissional e oportunidades de compartilhamento de experiências, especialmente onde governos locais e comunidades possam se beneficiar de capacidades técnicas adicionais.

A participação deverá ser voluntária, inclusiva e orientada por padrões profissionais, proteção de dados, salvaguardas adequadas e procedimentos institucionais.

O objetivo final não é simplesmente criar mais uma rede profissional, mas desenvolver uma comunidade de prática na qual o conhecimento esteja efetivamente a serviço da sociedade.

7. Do conceito à prática: Projeto-piloto de Comunidades Resilientes

Para demonstrar o valor prático da iniciativa, poderá ser desenvolvido no Brasil, por meio da ABJICA e de parceiros locais, um projeto-piloto, sujeito à apreciação institucional e à disponibilidade de recursos.

A iniciativa, denominada preliminarmente “Comunidades Resilientes: Do Conhecimento à Ação”, poderá ser estruturada em cinco etapas.

Etapa 1 – Diagnóstico comunitário

Identificar ameaças, vulnerabilidades, capacidades existentes e necessidades prioritárias por meio de avaliações participativas.

Etapa 2 – Mobilização técnica

Conectar ex-participantes da JICA, profissionais multidisciplinares, representantes de governos locais, universidades e organizações comunitárias.

Etapa 3 – Planejamento colaborativo

Desenvolver conjuntamente ferramentas, materiais educativos, orientações técnicas e medidas de resiliência adequadas à realidade local.

Etapa 4 – Ação comunitária

Realizar oficinas, campanhas de conscientização, atividades de preparação e intervenções práticas em cooperação com as instituições responsáveis.

Etapa 5 – Avaliação e compartilhamento de conhecimentos

Avaliar os resultados, documentar as lições aprendidas e identificar metodologias que possam ser adaptadas e replicadas em outras localidades.

O projeto-piloto representaria uma oportunidade para demonstrar como a experiência adquirida por meio da cooperação internacional pode gerar benefícios concretos para as comunidades e fortalecer a colaboração profissional.

8. Fortalecimento das Associações de Ex-Bolsistas da JICA e das parcerias internacionais

As Associações de Ex-Bolsistas da JICA desempenham um papel importante na manutenção dos vínculos entre antigos participantes dos programas de capacitação e na promoção do relacionamento contínuo com o Japão.

O Cluster poderá oferecer um mecanismo complementar para conectar essas associações por meio da colaboração técnica e de interesses profissionais compartilhados.

No Brasil, a Associação Brasileira dos Ex-Bolsistas da JICA (ABJICA) poderá constituir um ambiente institucional adequado para a discussão e o desenvolvimento de um modelo inicial.

Mediante consulta e aprovação institucional, as experiências e lições aprendidas poderão posteriormente ser compartilhadas com outras Associações de Ex-Bolsistas da JICA interessadas em iniciativas semelhantes.

Entre os potenciais parceiros estão governos nacionais e locais, universidades, centros de pesquisa, associações profissionais, organizações da sociedade civil, especialistas do setor privado e representantes comunitários.

Essa colaboração poderá ampliar o impacto de longo prazo da cooperação internacional, conectando os resultados dos programas de capacitação à prática profissional contínua e às prioridades do desenvolvimento local.

9. Proposta de estrutura para implementação

O desenvolvimento do Cluster exigirá uma estrutura de governança clara, proporcional e transparente.

Uma configuração inicial poderá contemplar:

Supervisão institucional: Alinhamento aos objetivos, diretrizes e mecanismos de governança da associação de ex-bolsistas envolvida.

Coordenação do Cluster: Articulação da rede profissional, atividades técnicas e parcerias.

Comitê Técnico Consultivo: Especialistas voluntários responsáveis por oferecer orientações científicas e profissionais.

Grupos de Trabalho Temáticos: Equipes multidisciplinares organizadas conforme as áreas prioritárias de desenvolvimento.

Pontos Focais Regionais: Apoio à mobilização local e identificação de oportunidades práticas.

Parceiros Institucionais: Organizações que contribuam com conhecimentos técnicos, pesquisas, instalações ou outros recursos apropriados.

Um programa indicativo para o primeiro ano poderá concentrar-se na consulta institucional, mapeamento das competências dos ex-participantes, constituição dos grupos técnicos, identificação de uma comunidade-piloto, implementação das primeiras atividades e avaliação dos resultados.

O processo deverá permanecer flexível, com responsabilidades claramente definidas, recursos realistas e objetivos mensuráveis.

10. Medindo o sucesso por meio do impacto comunitário.

O valor de longo prazo do Cluster não deverá ser avaliado apenas pelo número de profissionais participantes, mas principalmente pelos benefícios gerados por meio da colaboração.

Entre os possíveis indicadores estão:

·        Número de especialistas ativos na rede.

·        Grupos técnicos temáticos constituídos.

·        Parcerias institucionais estabelecidas.

·        Atividades de capacitação realizadas.

·        Comunidades e municípios participantes.

·        Ferramentas e materiais técnicos desenvolvidos.

·        Projetos-piloto implementados e concluídos.

Também deverão ser considerados indicadores qualitativos, como melhorias na preparação local, cooperação profissional, aprendizagem institucional, participação comunitária e aplicação prática dos conhecimentos.

O monitoramento e a avaliação permitirão identificar boas práticas, oportunidades de aperfeiçoamento e metodologias com potencial de replicação.

11. Uma oportunidade compartiilhada para o futuro.

O conhecimento adquirido por meio da cooperação internacional não deve terminar quando um programa de capacitação é concluído.

Ele pode continuar crescendo por meio da prática profissional, pesquisa científica, mentorias, colaboração e envolvimento comunitário.

O JICA Trainee Scientific and Technical Knowledge Cluster representa uma oportunidade de conectar essas experiências entre diferentes disciplinas, países e gerações, fortalecendo a contribuição dos ex-participantes da JICA para o desenvolvimento sustentável e a resiliência comunitária.

Seu sucesso dependerá do envolvimento institucional, participação voluntária, confiança mútua, integridade científica e compromisso compartilhado com o bem comum.

Ao conectar pessoas, conhecimentos e instituições, os ex-participantes dos programas da JICA possuem potencial para contribuir com uma cultura mais ampla de prevenção, preparação, inovação e desenvolvimento sustentável.

Do conhecimento à ação. Da experiência individual ao impacto coletivo. Da cooperação internacional à construção de comunidades mais fortes, seguras e resilientes.

Essa é a visão que fundamenta a proposta do Cluster.

Sobre o autor

Osvaldo Natale Vieira (Ossie)

JICA Trainee – Comprehensive Disaster Risk Management (CDRM), 2012–2014

Emergency Planning and Business Continuity

Profissional com experiência internacional no Brasil, Japão e Reino Unido, com atuação nas áreas de gestão integral de riscos de desastres, planejamento de emergências, continuidade de negócios, resiliência comunitária, cooperação técnica internacional e desenvolvimento sustentável.

Nota editorial

Este artigo apresenta uma proposta técnica independente, destinada à reflexão, ao diálogo institucional e à possível colaboração entre profissionais e organizações.

O JICA Trainee Scientific and Technical Knowledge Cluster constitui uma iniciativa proposta e não deve ser interpretado como programa oficialmente estabelecido, aprovado ou endossado pela JICA, ABJICA ou outras Associações de Ex-Bolsistas da JICA.

Outubro de 2026

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