18 Sep
18Sep

Conhecimento compartilhado para um futuro sustentável 

Como especialistas, bolsistas e ex-bolsistas podem transformar conhecimento técnico e científico em ações para o bem comum da sociedade brasileira


Introdução

 As mudanças climáticas, a urbanização, a degradação ambiental e a crescente interdependência entre infraestrutura, serviços essenciais e atividades econômicas estão transformando o perfil dos riscos enfrentados pelas comunidades. Inundações, deslizamentos, secas, incêndios florestais, ondas de calor, tempestades severas, escassez de água e interrupções de energia ou transporte podem produzir impactos que vão muito além do evento inicial, afetando a saúde, a economia, o meio ambiente, os serviços públicos e os meios de vida das populações. 

Nesse cenário, construir comunidades resilientes exige mais do que capacidade para responder a uma emergência. É necessário conhecer os riscos, compreender vulnerabilidades e exposição, proteger o meio ambiente, fortalecer capacidades locais, preparar a população e transformar conhecimento técnico e científico em ações práticas no território. É nessa perspectiva que o conceito japonês de Bousai (防災) oferece importantes aprendizados para o Brasil e para outras partes do mundo. 



Mudanças Climáticas e Riscos Emergentes

 As mudanças climáticas estão transformando o perfil dos riscos enfrentados pelas comunidades. Além dos perigos já conhecidos, torna-se necessário considerar riscos emergentes, interdependentes, simultâneos e em cascata, capazes de produzir impactos ambientais, sociais, econômicos e de infraestrutura cada vez mais complexos. 

Eventos extremos podem afetar simultaneamente sistemas de água, energia, alimentos, saúde, transporte, telecomunicações, infraestrutura e meio ambiente. Uma ocorrência inicialmente localizada pode, portanto, desencadear consequências em diferentes setores e comprometer serviços essenciais e os meios de vida da população. 

Nesse novo cenário, a construção da resiliência comunitária requer uma abordagem prospectiva, multidisciplinar e multirriscos, capaz de considerar não apenas os registros históricos, mas também mudanças futuras, novas vulnerabilidades e a crescente interdependência entre sistemas. O Bousai pode contribuir para essa adaptação ao fortalecer a prevenção, preparação, percepção do risco, educação comunitária, sistemas de alerta, planejamento por cenários e capacidade de resposta e recuperação. 

A participação de especialistas de diferentes áreas — incluindo bolsistas e ex-bolsistas da JICA e de outras instituições — também pode contribuir para transformar conhecimento técnico e científico sobre mudanças climáticas e riscos emergentes em soluções práticas, sustentáveis e adaptadas às necessidades das comunidades brasileiras. “Diante de um ambiente de riscos em constante transformação, resiliência significa não apenas preparar-se para os riscos conhecidos, mas desenvolver capacidade para antecipar, adaptar-se e responder aos desafios emergentes.” 



Bousai: construir resiliência antes do desastre

Bousai pode ser compreendido de maneira ampla como uma cultura de prevenção, redução de riscos, preparação e proteção diante dos desastres. Mais do que procedimentos utilizados durante uma emergência, representa uma abordagem contínua na qual governos, comunidades, universidades, empresas, especialistas, organizações sociais e cidadãos participam da construção de territórios mais seguros e preparados. 

Uma comunidade resiliente não é necessariamente uma comunidade sem riscos. É uma comunidade capaz de compreender seus riscos, reconhecer suas vulnerabilidades, conhecer suas capacidades, preparar-se para situações adversas, responder adequadamente e recuperar-se de maneira sustentável. O risco de desastre resulta da interação entre diferentes fatores, especialmente perigo, exposição e vulnerabilidade, dentro de um contexto em que as capacidades existentes podem reduzir os impactos. Isso significa perguntar não apenas qual evento pode ocorrer, mas quem e o que está exposto, quais vulnerabilidades existem, quais capacidades já estão disponíveis e como os impactos podem ser reduzidos antes do evento

Meio ambiente: parte essencial da infraestrutura de resiliência

Preservação ambiental e redução de riscos de desastres estão profundamente conectadas. Ecossistemas saudáveis podem desempenhar funções importantes de proteção e adaptação. Florestas, vegetação, matas ciliares, áreas permeáveis, manguezais, rios e sistemas naturais de drenagem podem contribuir para reduzir determinados impactos associados a enchentes, erosão, movimentos de massa, calor extremo e outros riscos ambientais. 

Em sentido contrário, ocupação inadequada do território, impermeabilização excessiva, desmatamento, poluição, degradação dos recursos hídricos e perda de biodiversidade podem aumentar vulnerabilidades já existentes. Por isso, Bousai, preservação ambiental, adaptação às mudanças climáticas, planejamento territorial e desenvolvimento sustentável precisam dialogar entre si. Proteger o meio ambiente não deve ser entendido apenas como uma agenda de conservação. Também significa proteger pessoas, infraestrutura, recursos naturais, atividades econômicas e as condições necessárias para que comunidades possam prosperar no longo prazo. 

Resiliência também significa proteger os meios de vida

 Os impactos dos desastres não se limitam à perda de edifícios ou infraestrutura. Uma emergência pode interromper empregos, produção agrícola, pequenos negócios, transporte, educação, abastecimento de água e energia, serviços de saúde e redes comunitárias. Esses impactos atingem diretamente os meios de vida — livelihoods — das pessoas. Para famílias e comunidades em situação de maior vulnerabilidade, a perda de renda ou dos meios de produção pode prolongar as consequências de um desastre muito depois da fase inicial da emergência. Construir resiliência significa fortalecer a capacidade das pessoas para manter, adaptar ou recuperar seus meios de vida, preservando sua autonomia e reduzindo impactos sociais e econômicos. 

Nenhuma especialidade consegue construir resiliência sozinha

 Os riscos contemporâneos são cada vez mais complexos e interdependentes. Uma inundação pode provocar interrupção de energia; a falta de energia pode afetar telecomunicações, abastecimento de água e serviços de saúde; problemas nas estradas podem comprometer cadeias de suprimentos; e um evento climático pode rapidamente gerar consequências ambientais, sanitárias, econômicas e sociais. Por essa razão, a construção de comunidades resilientes exige uma abordagem multidisciplinar e integrada. Profissionais de gestão de riscos e desastres, meio ambiente, mudanças climáticas, engenharia, planejamento urbano, infraestrutura, saúde pública, educação, agricultura, recursos hídricos, tecnologia, inovação, comunicação, governança, políticas públicas, desenvolvimento social e outras especialidades podem contribuir com diferentes perspectivas para um mesmo desafio. 


Bolsistas e ex-bolsistas: conhecimento que pode retornar à sociedade

 O Brasil possui um patrimônio intelectual particularmente importante. Ao longo de décadas, profissionais brasileiros tiveram acesso a programas de bolsas, capacitação, intercâmbio, pesquisa e cooperação técnica promovidos pela JICA — Agência de Cooperação Internacional do Japão — além de universidades, organismos internacionais, governos, instituições científicas e outros programas nacionais e internacionais. 

Esses profissionais retornam de suas experiências trazendo muito mais do que certificados: conhecimento técnico e científico, experiência prática, metodologias, inovação, redes profissionais e contato com diferentes maneiras de enfrentar problemas complexos. Existe, portanto, uma oportunidade de estimular bolsistas e ex-bolsistas a colocarem parte desse conhecimento, voluntariamente, a serviço do bem comum da sociedade brasileira. A JICA constitui um exemplo importante desse potencial, mas essa visão pode ser ainda mais ampla, aproximando bolsistas e ex-bolsistas de outras instituições nacionais e internacionais, pesquisadores, profissionais especializados, universidades e organizações interessadas em contribuir para o desenvolvimento sustentável e a resiliência das comunidades. 

Uma rede multidisciplinar de conhecimento para o bem comum

 O princípio seria simples: conectar pessoas que tiveram acesso ao conhecimento e criar oportunidades para que esse conhecimento seja compartilhado com a sociedade. Uma rede multidisciplinar dessa natureza poderia trabalhar em cooperação com governos, Defesa Civil, universidades, organizações da sociedade civil, empresas e, principalmente, com as próprias comunidades. A contribuição voluntária dos especialistas poderia incluir diagnóstico participativo de riscos e vulnerabilidades; educação para prevenção e cultura de Bousai; capacitação de lideranças e multiplicadores; apoio ao desenvolvimento de planos e exercícios; soluções baseadas na natureza; adaptação às mudanças climáticas; proteção dos meios de vida; tecnologia e sistemas de alerta; comunicação de risco; e desenvolvimento de materiais e ferramentas técnicas acessíveis. A intenção não seria substituir as responsabilidades das instituições públicas, autoridades ou profissionais legalmente responsáveis por cada área. Ao contrário, seria complementar capacidades, aproximar conhecimento especializado das necessidades locais e construir pontes entre ciência, experiência profissional, políticas públicas e comunidades. 

Do conhecimento científico à ação comunitária

 Um dos desafios da redução de riscos não é necessariamente a inexistência de conhecimento. Muitas vezes, existe excelente conhecimento técnico e científico, mas ele não chega de maneira prática e acessível às comunidades que poderiam beneficiar-se dele. Uma abordagem comunitária pode seguir um ciclo contínuo: Conhecer → Planejar → Preparar → Exercitar → Avaliar → Adaptar. Primeiro, compreender o território, os perigos, a exposição, as vulnerabilidades e as capacidades existentes. Depois, trabalhar conjuntamente com a comunidade para estabelecer prioridades, desenvolver soluções, preparar pessoas e organizações e testar os mecanismos por meio de exercícios e simulações. Finalmente, avaliar os resultados, aprender com a experiência e adaptar continuamente as medidas adotadas. Esse processo transforma a população de simples destinatária da resposta de emergência em participante ativa da construção de sua própria resiliência. 

Do global para o local

 Experiências internacionais podem oferecer importantes referências, mas não devem simplesmente ser copiadas. Soluções desenvolvidas no Japão, Brasil, Europa ou em outros países precisam ser compreendidas dentro de seus contextos e adaptadas às características ambientais, sociais, culturais, econômicas e institucionais de cada território. A verdadeira cooperação acontece quando ocorre intercâmbio de conhecimento e construção conjunta de soluções. Bolsistas e ex-bolsistas que conhecem a realidade brasileira e, ao mesmo tempo, tiveram contato com experiências internacionais podem desempenhar um papel particularmente valioso nessa conexão: transformar conhecimento global em soluções locais e levar experiências e inovações brasileiras para redes internacionais. 


Projetos-piloto: começar localmente e aprender para ampliar

 Uma forma prática de transformar essa visão em resultados seria iniciar com projetos-piloto de resiliência comunitária. Uma comunidade ou município poderia ser selecionado a partir de critérios de risco, vulnerabilidade, exposição e capacidade local. Especialistas de diferentes áreas trabalhariam juntamente com instituições e moradores para compreender as necessidades do território, identificar capacidades existentes, desenvolver soluções, promover capacitação, fortalecer a preparação e avaliar os resultados. As lições aprendidas poderiam contribuir para a construção de uma metodologia replicável, adaptável a outras comunidades e municípios. 

Conhecimento, sustentabilidade e legado

 Programas de bolsas e cooperação representam investimentos de longo prazo nas pessoas. O impacto desse investimento pode multiplicar-se quando o conhecimento adquirido não permanece somente na trajetória profissional individual, mas retorna à sociedade. Esse processo pode ser visualizado como um ciclo: Formação → Conhecimento → Compartilhamento → Aplicação → Impacto Social → Comunidades Resilientes. Essa perspectiva contribui diretamente para os princípios do desenvolvimento sustentável: integrar conhecimento, participação social, proteção ambiental, redução de riscos e fortalecimento das capacidades humanas e institucionais. O objetivo final não é apenas preparar comunidades para responder ao próximo desastre, mas contribuir para que sejam mais seguras, ambientalmente sustentáveis, inclusivas, adaptáveis e capazes de prosperar diante das incertezas futuras. 

Uma oportunidade para o Brasil e para o mundo

 O Brasil possui comunidades com enorme capacidade de inovação, instituições qualificadas e milhares de profissionais com experiência técnica nacional e internacional. Conectar esse patrimônio humano pode representar uma importante oportunidade de ampliar a cultura de prevenção e fortalecer a resiliência comunitária. A mesma lógica pode ultrapassar fronteiras. Redes internacionais de bolsistas, ex-bolsistas, pesquisadores e especialistas podem compartilhar experiências entre países, permitindo que conhecimentos adquiridos em uma parte do mundo contribuam para solucionar desafios em outra. 

Diante das mudanças climáticas e de riscos cada vez mais interconectados, cooperação, conhecimento compartilhado e participação comunitária deixam de ser apenas valores desejáveis e tornam-se componentes essenciais da resiliência. “Conhecimento adquirido transforma-se em legado quando é compartilhado e colocado a serviço do bem comum.” Bousai começa antes do desastre. Resiliência começa com conhecimento, preparação e participação. E desenvolvimento sustentável torna-se possível quando reconhecemos que proteger as pessoas, seus meios de vida e o meio ambiente faz parte de um mesmo compromisso com as gerações presentes e futuras. 

Osvaldo Natale Vieira (Ossie ).                                                                         

JICA TRAINEE- 2012-2014                                                                            

CDRM - Emergency  Planning Officer and Business Continuity Lead.             Herefordshire Council , Hereford, England, UK

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